“E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (At 2.42-47).
No versículo 45 (“Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”), há um princípio de ação da igreja de Cristo, que é absolutamente moderno, absolutamente revolucionário, absolutamente de vanguarda, embora tenha sido praticado há dois mil anos. E que princípio é esse? É o princípio do direito.
A filantropia está sustentada no postulado de que a pessoa que a exerce abençoa o necessitado segundo suas posses. É o filantropo quem decide o que vai doar, quando vai doar e em que quantidade vai doar. Esse é o princípio da benemerência.
Porém, está escrito: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”. O princípio aqui é que o necessitado dava o tom da ação da igreja. A igreja se via como responsável por suprir a necessidade dos irmãos. O princípio do direito está estabelecido. Não é a igreja que determina com quanto vai ajudar, nem como vai ajudar e nem quando vai ajudar, é a necessidade do beneficiado que impõe à igreja o que esta tem de fazer. Fica aqui estabelecida uma relação de direito e dever, na qual o necessitado era visto como um sujeito de direito e a igreja era vista como sujeito de dever. É dever da igreja satisfazer a necessidade do irmão carente.
Esse princípio, há 2.000 mil anos, era uma revolução, mesmo porque o direito só veio a ser realmente pensado com mais critério a partir do século 18. Até então, a idéia de direito era algo inexistente, com exceção de um lugar: a igreja primitiva. Isso é absolutamente revolucionário e significa que a igreja de Jesus Cristo foi o primeiro instituto humano a trabalhar com a premissa do direito. O caminho que a igreja escolheu na época foi a comunização, ou seja, todo mundo vende seus bens, coloca aos pés dos apóstolos, e estes administram o montante para satisfazer a necessidade de todos. O princípio com o qual a igreja trabalhava, portanto era o princípio da igualdade. O apóstolo Paulo diz em Coríntios, de forma literal, para ajudarmos os outros, de maneira a satisfazer as necessidades do outro. Esse princípio do direito desenvolveu na igreja uma série de considerações muito interessantes. A primeira diz que o princípio do direito está estabelecido que o irmão necessitado tem o direito de ser satisfeito na sua necessidade. Basta você se lembrar que os diáconos só existem porque a igreja tinha o primado do direito. As viúvas helênicas reclamaram que não estavam sendo satisfeitas no seu direito de serem assistidas. Os apóstolos então se reuniram e decidiram que era preciso constituir um corpo de ministros que se dedicasse única e exclusivamente a manter esse estado de direito vigendo.
A igreja primitiva estava milênios à frente do seu tempo, pois elegeu um corpo de ministros, sete pessoas, da melhor qualidade na igreja, com um único objetivo: manter a justiça social, não permitir que ninguém fosse preterido na satisfação das suas necessidades. Essa era a visão da igreja primitiva. Baseado nessa mesma visão, o apóstolo Paulo disse que o princípio era que, aquele que colheu demais não tenha sobrando para que o que colheu de menos não sinta necessidade, e o objetivo não é que um seja pesado ao outro, mas sim que haja igualdade. Isso significa que a igreja tinha um outro conceito, todos trabalhando por todos. Havia, dessa forma, na igreja primitiva um sistema de trabalho com um objetivo comunitário. O apóstolo Paulo, em Efésios, diz: “Aquele que furtava não furte mais, antes trabalhe para que tenha com o que acudir ao necessitado.” O que é muito interessante. Se este versículo fosse escrito da seguinte maneira: “Aquele que furtava não furte mais, antes trabalhe para que tenha com que pagar as suas próprias contas”, achariamos muito bom. Mas ele foi muito mais longe. Com isso o apóstolo Paulo está nos ensinando na Bíblia que, o contrário de roubo não é honestidade pessoal, é responsabilizar-se pelo patrimônio do outro, para que o outro tenha patrimônio. Essa colocação é absolutamente lógica, porque a igreja se vê como um corpo, e a idéia de corpo é que está todo mundo trabalhando para todo mundo. Pense: qual é a parte mais importante do seu corpo num determinado momento? Aquela parte que estiver doendo ou ferida, porque todo o corpo vai estar voltado para ela. Todo o seu esforço estará voltado para tal parte. Se você levar um pisão, o seu corpo todo só vai pensar no seu pé, e vai fazer tudo em função do seu pé. Se você for um daqueles marceneiros desastrados e meter uma martelada no dedão, o seu corpo todo vai viver para o seu dedo. Para o seu polegar. Qual é o princípio do corpo? O princípio de que todos trabalham por todos. Você não diz: “Eu estou com um problema aqui no dedão do pé, mas não tem problema, eu tenho mais nove e não estou nem um pouco preocupado se eu perder esse aqui”. Nunca ouvi ninguém falar isso. Você pode tentar ser o primeiro, mas eu não te aconselho! Porque não é esse o princípio da igreja, o princípio da igreja é o princípio do corpo. A igreja primitiva levou isso a ferro e a fogo na época.
